Você acabou de ver a Rayssa Leal, o Kelvin Hoefler e o Pedro Barros ganharem medalhas de prata nas Olimpíadas de Tóquio, andando de skate. Pra quem já anda de skate há um tempo pode parecer ficção, mas foi de verdade. Eu vi, nossos familiares viram, o mundo todo viu. Imagino que seja por isso que você esteja com vontade de comprar um skate, ou de finalmente usar aquele que você já tem mas nunca sentiu o cheiro da rua.
Vou tentar aqui te explicar um pouco melhor sobre o que é o skate no dia-a-dia. É bom avisar que eu não sou ninguém especial. Não sou parente do Tony Hawk, nunca fui amador ou profissional. Sou mais um skatista que deve saber umas 30 manobras e ama skate igual a todo mundo que um dia se apaixonou por ele. Mas aprendi algumas coisas em 19 anos nesse universo, e vou te ajudar a cortar caminho. Vai que você não gosta de alguma coisa e prefere já pular fora antes da frustração bater forte. O assunto é infinito então, pro meu próprio bem, nesse texto vou falar de apenas três ou quatro aspectos do skate. Aí vai de você acreditar ou não no que vou te falar aqui.
artes por Marcio Moreno
Assim como o rap, que nasceu como música de festa e hoje é uma ferramenta de conscientização e luta (e música de festa também), o skate nasceu como brinquedo, mas hoje é contracultura. Não confunda: ele continua sendo um brinquedo, mas com o poder de transformar vidas, criar laços profundos, abrir mentes, desafiar dogmas. É bom falar disso logo de cara porque talvez seja o ponto mais importante pra te explicar. Quem gosta de skate pode ter nele uma diversão, um calmante, um desafio, um passatempo, uma profissão, uma tela em branco, enfim… Depende de cada um. Você deve tê-lo conhecido como ferramenta de competição, mas essa é a última das coisas que ele é, e só por poucos segundos.
Outra coisa: o skate é parte da rua, está na rua e vai continuar na rua depois de Tóquio. Nós dividimos espaço com moradores de rua, camelôs, bandidos, policiais, com o povo. Pisamos no asfalto, andamos pela cidade sem estar dentro do carro. O skate é parte da vida real, que acontece fora das telas da TV e do celular. Se você é do tipo que se assusta fácil, ainda vai ter as pistas, um ambiente mais controlado, menos hostil. Mas o dia em que você invadir uma escola pra andar num domingo, ou sair correndo de um velho reaça que não quer ninguém manobrando na frente da casa dele, vai entender qual é a parada. E aí não para mais.
Na TV pode até parecer que não, mas as pessoas comuns tem bastante coisa contra o skate. Por algum motivo, o cidadão de bem só gosta de ver a gente de longe, se possível em Tóquio mesmo. Vai tentar explicar pra quem não anda que você quer andar naquela escada, naquele pico. Claro que isso, às vezes, gera pequenas tretinhas e alguns takes engraçados pro vídeo. Não é todo mundo que gosta de ver um bando de skatistas tirando a tinta daquele monumento horroroso na fachada do prédio. Mas o que é uma demão de tinta perto das memórias que o pico vai proporcionar? Filosofei. Azar o deles. Veja bem: a gente não manobra no pico pra arrumar briga, quem gosta de briga são eles. Mas agora você já vai começar a andar de skate podendo sacar um “estou treinando pras Olimpíadas”, ou “sou um atleta de ponta”. O nosso “esporte” é lindo, até o momento em que o “esportista” deixa escapar o skate e ele vai direto na canela de alguém. Aí não tem “sou primo da Rayssa Leal” que salve.
“E as pistas?” São essenciais, e nós queremos cada vez mais. Todo rueiro ou rueira cola em pista, quase diariamente. O skate precisa das pistas. Das boas, claro. Mas andar de skate e não olhar pra um pico na rua, parar e manobrar, é um desperdício. Skate é usar um degrau, um corrimão, uma estátua, de um jeito que ninguém imaginou. É a reinterpretação do espaço público. As ruas não foram feitas pra gente, mas nós nos apropriamos mesmo assim. É aí que tá a parada, o desafio, a vivência que apaixona.
O skate também é acolhedor. Isso você já viu em todas as matérias da Globo neste último mês, com muito slow motion, pianinho emocionante de fundo e narração brega. A amizade é peça fundamental do nosso universo. Sabe aquele abraço que a Rayssa deu na Margie Didal? Aquilo lá é o nosso dia-a-dia, é terça-feira. Só cabe um skatista em cima de cada skate, mas andar de skate sozinho é meio triste, não chega nem perto da graça de se andar com os amigos, falando merda, comendo porcaria e exagerando na comemoração quando alguém acerta uma trick. Na verdade, cada vez mais skatistas estão parando de comer porcaria, então essa parte fica por sua conta. Mas resumindo: você vai fazer amigos aqui. Provavelmente, os melhores da sua vida. Quer dizer, se você não for uma pessoa com os valores todos errados, retrógrados. Aí talvez você saia com os dentes quebrados. Pocas ideia.
Tem gente que eu conheci no skate, não vejo há uns 15 anos mas sei que, se encontrar na rua amanhã, a conexão vai ser a mesma de quando andávamos juntos todo dia. Não é papo do Razões Pra Acreditar, é real. Todo mundo do skate tem alguém assim. A maioria das amizades construídas em cima do skate são firmes como rocha.
Também quero falar um pouco sobre os ídolos no skate. A maioria dos skatistas é completamente zureta das ideias. O protagonista do vídeo abaixo é o Mark Gonzales, o Gonz, um dos skatistas mais importantes de todos os tempos, se jogando na escada do Museu do Louvre. Por quê? Porque sim! Arte, sei lá. Esses são nossos ídolos, os fundadores do nosso estilo de vida, os alicerces. E talvez você fique confuso, mas já houve até um caso em que os próprios skatistas meteram a porrada em um grande ídolo mundial, aqui no Brasil mesmo. Não vou entrar em detalhes, mas dizem que mereceu. A maioria dos skatistas não tolera ideia errada, seja de quem for. A acessibilidade dos ídolos é uma via de mão dupla.
Hoje em dia, dificilmente alguém vira ídolo no skate por ganhar campeonato. Na minha percepção de quem não estudou a fundo esse assunto específico, isso acontecia mais nas décadas de 80 e 90, quando os campeonatos eram uma das principais vitrines, e agora aconteceu de novo nas Olimpíadas. Aqui no nosso universo, os maiores ídolos nascem nos vídeos: Bones Brigade Video Show, Duotone, Flip Sorry, Baker 3, Antihorário, Mindfield, Questionable, 411 #64, Yeah Right… Só pra citar alguns que você já pode caçar no YouTube e começar a lição de casa. Tenho até inveja de você, que vai assistir tudo isso pela primeira vez.
O Pedro Barros, por exemplo, já é ídolo de muita gente. Mas não foi por causa desse ou daquele evento. Os eventos que ele ganhou (ou perdeu) tiveram parte nisso, com certeza, mas o que ele tem de melhor pra ser admirado é a atitude, o estilo, o skate andado com vontade, como uma força da natureza. Você vê ele fazendo uma linha dentro do bowl e pronto: virou ídolo. Você vê a Rayssa andando de skate rindo, fazendo dancinha, e pronto: ídola.
Outra coisa sobre os ídolos que acho válido mencionar: eu, pessoalmente, não tenho nenhum. Tenho admiração verdadeira por vários skatistas, mas a palavra “ídolo”, na minha cabeça, implica uma certa distância, o que eu nunca vi no skate. Aqui na Black Media, conversamos diariamente com os skatistas mais cabreiros do Brasil e, vira e mexe, falamos ou entrevistamos algum gringo ou gringa. Consigo contar nos dedos de uma mão os que chegaram com aquela arrogância de superstar. Quase todo skatista “famoso” é acessível, sangue bom. Tem os cheios de ego, mas são minoria. Hoje em dia, vários tem alguém pra ajudar a gerenciar a carreira, ir atrás de patrocínio; mesmo assim, se você mandar um mensagem no Instagram, as chances do próprio responder são grandes. Você pode ter certeza que um dia vai trombar um profissional na pista ou no pico da sua cidade, é questão de tempo. Muito fácil de acontecer. Você nunca vai jogar bola com o Cristiano Ronaldo, mas pode fazer um back to back com o Rodrigo TX num dia normal. Bem melhor.
Acho que tá bom por enquanto. Espero que tenha te ajudado a decidir se o skate é pra você ou se é melhor ficar só no hype, de quatro em quatro anos. Se for a última opção, tá tudo certo.
Ah, já que esse texto é direcionado pra você que chegou agora ao skate, lembre-se de um dos nossos mandamentos: skate se compra na skate shop. No skate, existe um monstro que, toda noite, visita a casa de quem comprou skate em loja de brinquedo, e espanca os filhos da pessoa, cospe nos cachorros, suja a louça… É sinistro. Cuidado.

