Texto por Fabio Luiz Pimentel:
Revide, o novo vídeo do coletivo Flanantes, se inspira desta vez, no livro Mil Platôs, volume 5, dos filósofos franceses Félix Guattari e Gilles Deleuze, especialmente no capítulo “O liso e o estriado”. Na produção Flanante, Deleuze já subsidiou o vídeo Rizomas, lançado em 2021. O revide carrega em si duas concepções: o de contra-ataque da Máquina-de-skate Flanante à ordem do Capital e a combinação do espaço liso e esburacado, com os quais se deparam nômades na busca da cidade secreta dos obstáculos, máquina que define uma força criativa e de resistência que contesta a estrutura sedentária do Estado através de linhas de fuga que inventam novas maneiras de viver e produzir manobras coletivamente!
Revide onde Maikon Quaresma desce uma rampa fina de fifty sob o olhar atento dos amigos e transeuntes admirados como Seu Eugênio que afirma que “a persistência é fundamental em nossas vidas”. Se tomarmos sua trilha sonora por movimentos, o primeiro vem com Jards Macalé e a foto do amor que reivindica o lugar da Barra Funda. O vídeo apresenta o litoral paulista: Didi Wanks e Guguinha. Um wallride na Igreja evangélica, um deck de madeira disposto às manobras, uma rampa aberta aos manuals, o skate jovem e técnico do Felipe Andrade, a presença da infância flanante de Felipe Urch ou um heelflip elegante de Deyze Rizeto que desce a ladeira.
Entre manobras e ocupações, Revide apresenta a força do conceito que marca a produção Flanante, abrindo o segundo movimento com a canção “Cala a Boca, Menino” do falecido pianista carioca João Donato onde se ouve: “Cala a boca, menino, que seu pai logo vem. Ele foi pro Cabula, comer jaca mole da cabeça dura”. Assim tem início a intervenção do skate do Daniel Marques que mescla complies aos combos; seguido de Peter Volpi e Agatha Alencar.
Numa abordagem da Polícia Militar motivada por uma denúncia de moradores, esta defende que não pode impedir que skatistas ocupem o espaço público numa rara demonstração de que a prática urbana do skate pode ser assimilada pelo aparato militar do Estado. Nas palavras do policial, “Ele não pode privar os(as) skatistas neste quesito”, diante da voz do morador que insiste: “Mas e a perturbação?!”.
Um traço antropológico de Revide é o caminhar de uma mãe com duas filhas carregando seus skates. Para andar de skate é necessário, às vezes, limpar o chão com uma escova. Abre-se o terceiro movimento com Mambembe, de Chico Buarque, que diz: “No palco, na praça, no circo, num banco de Jardim”. Flanante ou cigano, andando de skate, tomando caipirinhas à noite, um Didi errante pela cidade, o revide debaixo da ponte, canta, o olhar do segurança, o gap.
O último movimento traz o berimbau do músico maranhense Papete para simbolizar a cidade e os skatistas de Salvador, Bahia. A força do skate pernambucano de Bobinho rasga a cidade de São Paulo. A presença de Fábio Cristiano. Um switch kick saindo da calçada, uma ladeira me aguarda! A manobra de Babette e uma advertência: Jamais acreditar que um espaço liso basta para nos salvar!
