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A Luta de Kaio Carvalho

A primeira vídeo parte de 2026 na Black Media é a LMC, de Kaio Carvalho, skatista de 23 anos natural de Vilha Velha/ES. Podia ser mais uma parte independente cabreira, cheia de manobra boa, mas essa aqui tem um gosto especial. Durante as filmagens, ele descobriu que tem Leucemia Mieloide Crônica, doença que o afastou do skate durante alguns meses. Ele ficou internado, voltou com vontade máxima e terminou a parte com o Kico, videomaker que abraçou o projeto. Troquei uma ideia com ele sobre todo esse processo:

Essa parte foi um projeto pensado ou você foi filmando e quando viu tinha coisa suficiente pra editar uma parte boa? Qual foi o processo?
Então, eu já tenho uma parte pela Barra; a gente soltou até no canal da Black Media há um tempo atrás, e minha vontade era ter uma parte independente, tá ligado? Sempre foi um sonho. Aí eu troquei ideia com o Kico (Henrique Carvalho, videomaker) e ele botou fé. Eu fiquei uns dias em Santa Catarina e em São Paulo, a gente começou a filmar e foi bem nessa. Ele abraçou a ideia de fazer a parte comigo.

De onde o Kico arranja tanto tempo pra filmar tanta coisa?
Então, mano! O Kico é sinistro, o bichão. Ele também dá umas ideias, ele quer ver o bagulho acontecer, bota uma pressão. Se não estiver, ele faz você ficar na pegada, tá ligado? Foi só eu e ele mesmo.

Eu queria falar da doença que apareceu no meio disso tudo. A parte se chama LMC, que é Luta, Motivação, Coragem, mas também é a sigla da doença que você descobriu que tinha, né? Leucemia Mieloide Crônica.
É, é a sigla da doença, tá ligado? Mas aí a gente falou: “Mano, o que a gente faz aqui pra não ficar o nome da parte, o nome da parada, pra…”.

Pra ressignificar, dar um outro sentido pra sigla, né?
É. Eu falei com ele (Kico) que a sigla era essa, que eu queria colocar o nome da parte de LMC, pelo bagulho que eu passei, Aí ele falou: “Da hora, mano, mas a gente precisa dar um significado, porque muita gente vai perguntar, não vai saber. Aí ele colocou Luta, Motivação e Coragem. Eu achei da hora, dá um significado pra parada. 

Me conta como foi que você descobriu tudo isso.
Mano, essa parada aí foi bem sinistra, porque a gente já tinha filmado mais da metade do vídeo, e eu tava lá em Santa Catarina. A gente filmou, eu fui nuns eventos… Aí eu voltei pras áreas como se nada tivesse acontecido, mas lá em SC eu já tava sentindo meio que umas fraquezas estranhas, umas febres meio estranhas… Dava umas febres assim do nada, aí eu tomava remédio e passava. Daqui poucas horas voltava bem mais forte, tá ligado? Umas paradas muito sinistras. Eu fiquei meio preocupado, mas a gente nunca vai pensar que é uma parada grave, né, mano? Falei: “Ah, deve ser uma virose, alguma parada assim, uma dengue no máximo”. Aí, nisso, quando eu voltei pra cá, não tive melhora, só piorando. Tava negligenciando ir num médico; foi quando o pessoal da minha família e minha mãe falaram: “Não, tá estranho, você precisa ir no médico”. Achei que ia tomar só uma medicação, uma parada assim, um diagnóstico de uma parada mais de boa, mas eles fizeram um exame de sangue e falaram que eu tava com princípio de anemia, de primeira. Aí me mandaram pra medicação pra tomar ferro na veia, pra anemia, tá ligado? Quando eu cheguei na sala de medicação, deu dois minutos que eu tinha tirado o sangue antes de tomar a medicação, os caras me chamaram pra tirar sangue de novo. Eu achei estranho, aí o mano meio que deu um migué e falou: “É porque não deu bom aqui o primeiro exame e a gente precisa tirar de novo”. Depois que tirou, ele chegou pra mim e falou: “Então, mano, a parada é a seguinte: deu uma alteração muito grande no seu primeiro exame, que a gente achou até que tinha bugado alguma coisa no sistema de tão cabreiro que o bagulho tava. E a gente precisava ter certeza; quando a gente tirou o segundo exame, realmente deu a mesma taxa”. Nessa eu já fiquei meio que preocupado assim, né? Aí ele falou: “A gente vai precisar te internar”. Aí o hospital já virou prisão.

Você nem foi embora?
Não. Eu achei que ia chegar, tomar a medicação e ir pra casa. Acabou que eu fiquei preso lá já, já viram um leito pra eu ficar. Eu fiquei em observação três dias só tomando soro, porque nesse hospital eles não conseguiam dar o meu diagnóstico. No caso, eu tinha que ser transferido pra outro hospital. Porque de primeira eles falaram: “Pelos sintomas aqui do seu exame ou você tá com uma bactéria ou…” Porque o meu baço inchou um pouco, tá ligado? E o baço meio que avisa quando tem alguma coisa errada no nosso corpo, infecção, essas paradas. Aí o baço inchou. Eles falaram: “Pelos exames, pelo inchaço do baço, ou o baço tá tentando combater uma parada muito sinistra de infecção ou de última, mais grave, você tá com suspeita de leucemia”. Aí, mano, desabou. Tava eu e minha coroa, a gente já ficou preocupado, né, mano? Leucemia, câncer… Cabreiro, né?

É punk.
É, mano. E eu nunca tive indício na família, ninguém que teve leucemia, porque geralmente essa doença é genética, né? Aí eu fiquei três dias nesse hospital, consegui ser transferido pro outro hospital, que é em Vitória, aqui do lado de Vila Velha. E é um hospital que é muito bom nessa questão hematológica, doença sanguínea. Eu consegui a vaga lá e falei: “Puta, graças a Deus, mano, esse hospital aqui é referência”. Chegando lá, eu fiquei dois dias até fazer o exame da medula óssea. E, quando eu fiz, graças a Deus o médico falou que a minha leucemia é a mais leve, tá ligado? É a crônica. Tem dois estágios: a crônica e a aguda. A aguda é a mais sinistra, que precisa de quimioterapia, transplante de medula e tal. A minha é mais de boa e dá pra tratar só na medicação e mudança de hábito. Eu costumava tomar um gole de vez em quando, quando saía com os amigos, fumava… Eu tive que mudar a minha vida de uma vez, assim. Porque eu pensei: “Eu curto pra caramba andar de skate, as coisas vem dando certo já de um tempo. Então ou é o skate ou é a gastação ali, o rolê”. Então eu tive que mudar os hábitos. Em fevereiro agora faz um ano que aconteceu essa parada. Eu tenho feito acompanhamento de dois em dois meses. Graças a Deus tá tudo certo, não tem nada que tenha que se preocupar. Só tomando o remédio certinho, uma vez por dia, e me cuidando. Quando eu tava internado lá, eu fiquei preocupado, tipo: “Será que eu vou conseguir andar de skate normal? Vou ter alguma limitação? Cansaço, fraqueza, essas paradas”. Fiquei três meses de boa, aí o médico falou: “Agora você tá liberado pra viajar, pra competição, pro skate”. Eu falei: “Nossa, mano, graças a Deus”. E depois que essa parada rolou, fiz várias trips. Voltei a Santa Catarina, fui pra Sampa várias vezes, fui pro Rio, corri uns eventos da hora, consegui terminar a parte com o Kico, que pra mim foi o mais da hora.

Você vê essa vídeo parte como um símbolo disso tudo que rolou com você? Pra marcar tudo que aconteceu?
Sim, com certeza. Marcou como uma superação, conseguir terminar essa parte. Eu pensava: “Será que quando eu sair daqui eu vou conseguir terminar?”. E acabou que deu certo. Quando eu falei pro Kico que já tava liberado pra andar, ele falou: “Vou colar praí”. A gente ficou uma semana aqui (Vila Velha – ES) filmando direto e deu boa. Agora eu tô bem, voltei a andar, voltei à normalidade, e essa parte foi pra consumar isso daí, tá ligado?

Agora você tem que ficar tomando esse remédio a vida inteira?
É vitalício.

E esse susto todo fez você enxergar as coisas de outro jeito?
Com certeza. Hoje em dia eu tenho outra visão da vida. A gente não sabe o dia de amanhã, então tem que aproveitar, né, mano? E se cuidar, principalmente. Foi uma parada que me ensinou a me cuidar melhor, cuidar da alimentação, dos hábitos, do corpo. Porque o importante é a saúde, né? Não adianta tu ter várias paradas e não ter saúde pra aproveitar o que tem. Cuidar da saúde é uma das paradas que eu tô priorizando agora na minha vida.

E seus amigos? Eu vi que foram te visitar nessa semana do hospital… Como foi?
De começo só os brothers mais próximos que ficaram sabendo. Eu não tava falando porque é um momento muito delicado. Eu só fiz o post depois que tive alta do hospital. Mas enquanto eu tava ali internado, depois de um tempo o médico falou: “Agora você tá suave pra receber visita, mas tem que falar pro pessoal ter cautela, porque agora a sua imunidade tá muito baixa”. Porque a leucemia dá essa parada, a gente fica mais vulnerável, a nossa imunidade é mais baixa. Eu lembro que vieram uns seis amigos do skate mais próximos, entrando de dois em dois. A galera chorou e o caralho quando me viu. É uma situação, né, mano? Você tá com o seu brother no rolê, daqui a pouco vê ele cheio de fio na maca. Cabreiro. Mas foi da hora; essa parada do pessoal me visitar me deu um up assim, tá ligado? Porque quando a gente tá ali na cama do hospital, a gente pensa várias fitas, né, mano? Tipo, a vida acontecendo lá fora, e a gente aqui paradão, esperando uma luz. O pessoal da Barra (marca) também colou lá, tá ligado? Levaram uns presentinhos, foram ver como eu tava. Foi da hora ter essa atenção da marca também. Os caras podiam muito bem ficar mandando mensagem, acompanhando de fora, mas fizeram questão de estar lá, ver como é que eu estava, trocar uma ideia. Isso foi bem da hora. E eu fiz o post depois que eu tive alta pra dar uma ideia de superação: “Ah, passei por isso mas agora tô bem, tô em casa…”. Depois que eu tive alta, fiquei uns dois meses só em casa, não podia sair. 

Ah, então você ainda ficou mais um tempo sem skate, sem poder pisar na rua.
Fiquei dois meses em casa e um mês esperando o baço desinchar. Porque o médico falou: “Sua saúde tá em dia pra andar, mas o seu baço, se você cair em alguma parada, pode piorar e ele voltar a inchar. Então é melhor esperar ele voltar ao normal”. O mesmo médico que me atendeu agora faz meu acompanhamento pro resto da vida. Aí ele flagrou meu trampo, me segue no Insta e me dá uma atenção da hora. Essa última trip que eu fiz agora, eu fiquei um mês e pouco longe de casa, e o remédio que eu tomo é de alto custo. Custa R$16.000,00.

Nossa! E você pega de graça então, pelo SUS, pelo hospital?
Eu acho que é SUS, mas é o médico que faz o pedido. Graças a Deus eu recebo pelo hospital, não preciso comprar. Mas por ele ser de alto custo é de mês em mês que eu pego. Quando dá um mês certinho eles liberam, antes disso não pode. Eu fui lá explicar pra ele que eu ia ter essa trip, ia ficar mais de um mês fora e o remédio não ia dar. Ele até tentou lá na farmácia do hospital ver se os caras conseguiam adiantar, mas eles falaram que não podia. Eu viajei com os remédios que eu tinha. Eu dei um salve na minha mãe quando tinha só uns dois. Ela foi no hospital, pegou e mandou pelo Sedex pra mim, lá em Santa Catarina. Demorou um pouco, eu fiquei três dias sem tomar o remédio. Ela até ficou um pouco preocupada, mas graças a Deus não deu nada. Fiquei de boa. Eu tive uma consulta antes de ontem, a primeira do ano, e graças a Deus tá tudo certo, mano.

Que bom, mano. E você é bem novo, 23 anos, né?
É. Eles falaram que o meu caso é raro porque essa doença é mais comum de dar em criança, bem criança mesmo, ou em gente de mais idade. Geralmente, gente jovem assim é muito difícil. Como eu não tenho ninguém na família, eles falaram que o meu caso é raro porque é uma alteração direta na medula. E graças a Deus não foi a aguda, porque se eu fosse precisar de um transplante, o único que é compatível comigo é o meu irmão mais velho, e ele mora com o meu pai lá nos Estados Unidos. No começo, quando a gente ainda não sabia o que era, ele falou que faria.

A gente fez um documentário do Big Pool Day, que ainda vai sair, e quem descobriu a piscina em Caçapava foi o Beto Olliegator. O Felipão fala que ele viveu 20 anos fazendo hemodiálise e só viveu tanto tempo com a doença por causa do skate, literalmente. Não é papo místico, é real mesmo.
Essa é a parada. Desde criança eu faço esse bagulho e quero fazer até quando o corpo deixar. Não me vejo mais sem skate. Eu comecei a andar muito novo, tinha sete anos. Foi o brinquedo que eu ganhei quando criança que eu nunca mais larguei. Começou com o presente de Dia das Crianças, da mãe, e até hoje é a minha vida. Ele me ajudou 100% nessa parada, de querer melhorar pra estar em cima do skate, de ser forte pela minha família e pelo skate, porque o médico mesmo fala o nosso psicológico também influencia muito nessa hora. É uma força a mais que tu tem pra conseguir vencer a parada. 

Total. E da parte ali, qual foi a mais difícil de voltar?
Deixa eu ver… Acho que foi o nollie crooked que fechou, porque aquele corrimão é um pouco cabreiro e pelas circunstâncias também, de ser na frente de um prédio comercial, pouco tempo pra andar. E eu acho que a dificuldade maior foi porque foi no último dia que o Kico tava aqui, então a gente já tinha filmado uma semana direto e ele falou: “Mano, agora a gente precisa fechar”. Eu já tava destruído das sessões e tinha que fechar o vídeo. Ele falou: “Mano, tem que fechar hoje porque eu vou embora às seis da tarde. Você tem até às quatro e meia, senão o vídeo vai atrasar”. A gente chegou lá uma da tarde. Eu até queria dar uma trick mais da hora ali, mas acho que o nollie crooked foi o melhor na ocasião. O corrimão não é fácil, pouca gente andou nele.

O que mais pretende fazer esse ano?
Já falei com o Kico pra gente fazer minha primeira eurotrip, a gente tá esquematizando um vídeo novo com a Barra, quero fazer mais uma parte independente, correr uns eventinhos… Já já entro em contato com vocês!

Quer deixar um salvinho?
Eu queria fazer um agradecimento pro Kico em especial, porque o bicho botou fé, se deslocou, ficou preocupado, mandou várias mensagens quando rolou essa parada comigo… Eu vi a preocupação de verdade, a amizade; saber se eu tô bem, quando eu melhorei, agitou pra fazer o bagulho acontecer e se jogou pra cá pra minha área, que não é perto. Santa Catarina pra cá é uma viagem, mano. Queria agradecer vocês também pelo espaço, de verdade.

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