Murilo Romão é muitas ideias. E isso não se resume ao que ele fala, mas ao modo como vive, anda, observa e se movimenta pela cidade. Um dos mais respeitados skatistas profissionais do Brasil, Murilo construiu sua trajetória combinando carisma, consistência e uma rara intimidade com as profundezas das ruas. Citadino nato, ele se deixa atravessar pelas situações do cotidiano urbano, atento às surpresas, aos conflitos, às belezas e às contradições da vida na cidade. Sua sensibilidade e criatividade aguçadas se revelam não apenas nas manobras, mas no conjunto de ações que vem produzindo ao longo dos anos.
Além de liderar o coletivo Flanantes, Murilo é responsável por uma série de vídeos de skate ousados, densos e inventivos, inspirados em perspectivas teóricas caras a autores das ciências humanas, articulando skate e urbanismo de maneira singular. Também já produziu livros, fez palestras em eventos no exterior, esteve à frente do movimento “Salve o Vale!” e participou de diversas iniciativas que extrapolam os limites convencionais do skate. Murilo é, nesse sentido, a expressão de um skatista ativista.
Em tempos de redes sociais, impaciência e entrevistas cada vez mais curtas, resolvemos apostar no contrário: uma conversa longa, aberta e cuidadosa, para que Murilo pudesse se expressar à altura de sua trajetória. Ao leitor, fica a provocação: tenha paciência, desacelere e leia tudo. Vale a pena!
Entrevista por: Giancarlo Machado (@gianmachado_ / @skateacademico)
Murilo, você tem 36 anos de idade e, desses, cerca de 26 foram em cima do skate. Em algum momento você já imaginou que rumo sua vida teria tomado se não tivesse se tornado skatista?
Salve, Gian. Difícil pensar nisso, porque o próprio skate acaba influenciando nas escolhas da vida. Conhecer o skate é algo incontornável para alguns, até perigoso (risos). É muita dedicação, horas a fio, e o mais legal é que ninguém está te obrigando a fazer aquilo. É uma escolha consciente, mesmo que não tenha um objetivo a ser alcançado. O próprio ato de andar de skate já é uma baita realização, fora tudo que ele nos apresenta além das manobras. Devido a esses fatores, acho que minha vida teria ido para um caminho mais familiar ou padronizado, a não ser que algum instrumento cruzasse meu caminho, porque música também exige muito empenho e cria laços de comunidade. Mas, no geral, acho que, sem o skate, minha vida teria ido para um caminho mais padrão, mais caseiro, com algum trabalho normal, com expediente dividindo tempo livre e tempo de trabalho. Talvez uma vida mais tranquila, até mesmo fora do Brasil. Imagino que seria no caminho das humanas mesmo, porque nunca fui bom com exatas.
Vamos falar de sua trajetória como skatista a partir de uma pergunta básica. Como foi o primeiro contato com o skate? E em que momento o skate começou a te levar para além do seu bairro, fazendo você descobrir outras partes da cidade?
Eu tive contato ainda criança, com 7, 8 anos, mas como um brinquedo mesmo. Fui ter skate de fato entre 10 e 11 anos, quando meu irmão, que já tinha skate, não usava tanto. Ele oscilava entre skate e patins. Aí fui usando o dele até conseguir o meu. Lembro até hoje: foi na loja Shock, em Santana, que consegui meu primeiro skate, com minha mãe. Ficou marcado. Isso já simboliza uma ideia de memória afetiva na cidade, pela Zona Norte, que tem tanta tradição com o skate. Fui descobrindo isso aos poucos. Depois disso, acompanhava meu pai em caminhadas pelo bairro sempre com o skate junto. Ia na frente dele, buscando lugares propícios. Andava também no quintal e levava o skate em almoços e viagens de família. Sempre levava o skate para conhecer o bairro ou uma nova cidade. Enquanto rolava aquela soneca pós-almoço de todos, eu ia para a rua. E sempre era um acesso diferente à cidade. O skate me fazia não ter medo da rua, e fui descobrindo os entornos do meu bairro com ele, até que comecei a andar de ônibus sozinho, imagino que com uns 13 anos. Aí fui conhecendo mais gente e transitando com mais liberdade, indo ao centro, a campeonatos e criando essa rede e esse olhar skatista que se estende até hoje.
Você é reconhecido principalmente como um skatista de rua, embora também ande em pistas. Como você descreveria a diferença de sensações e experiências entre andar nas ruas e andar nas pistas?
Eu acho que as sensações são muito diferentes. É interessante pensar nisso: uma mesma prática corporal que se deixa influenciar pelo espaço em que se pratica. Na pista, o skate já é dado, as possibilidades oferecidas são mais previsíveis, o chão é liso, tudo desliza e a calmaria impera para treinar. Na rua, nada está dado para o skate. É um exercício constante de pensar possibilidades, identificar terreno, analisar o material com que a cidade é construída, fora todas as questões sociais que a rua nos apresenta. No nosso país, a desigualdade é gritante, e isso percebemos andando nas ruas. O skate de pista se aproxima mais do esporte, visando nível técnico. Se você busca andar de skate de maneira criativa em uma pista lotada, pode ter certeza de que vai atrapalhar muita gente. Digo isso por experiência própria. Já o skate de rua é uma prática urbana com suas próprias características e costumes, que muitas vezes recupera espaços ociosos, mesmo que temporariamente. Na rua, a imaginação vai muito além. A gente pensa skate sem skate, imagina manobras em lugares onde talvez nunca vá andar. Para resumir tudo isso, evoco Alexandre Tizil, que disse em uma abertura de vídeo na Agacê, de 2000, “Evolução da espécie”: “Nenhuma pista vai conseguir reproduzir a sensação de você estar andando na rua, em um pico muito louco.” Esse é um dos meus vídeos preferidos.
O que as ruas te ensinaram ao longo desses anos? Você diria que elas também educam de alguma maneira?
Educam muito. É na rua que temos contato com todo tipo de gente. É o espaço mais democrático que conheço. A gente aprende a lidar com diversas pessoas, se depara com situações pesadas e também é surpreendido a todo momento. Por isso tanta gente tem medo da rua: é imprevisível, e isso assusta. Não ter controle sobre as coisas. Mas isso tem seu lado bom também, é isso que torna a rua atraente. Mas o maior aprendizado que tive é que, em cada cidadão ou cidadã que tentam marginalizar através das mídias e noticiários, existem seres humanos que às vezes só buscam um pouco de atenção em meio ao caos da cidade. Claro que existem violências e crimes nas grandes cidades, mas quanto mais a gente se afasta das ruas, mais perigosas elas ficam. Ruas movimentadas se tornam mais seguras. Como disse Jane Jacobs, o conceito dos “olhos da rua” acaba fazendo essa manutenção dos espaços públicos.
Você é um citadino por excelência. Possui um olhar peculiar que lhe permite descobrir e experimentar alguns dos tantos sentidos da urbanidade. Como o skate mudou a forma como você observa e interpreta os espaços urbanos?
Foi através do skate que desenvolvi essa curiosidade de conhecer lugares novos e testemunhar urbanidades. Uma busca incansável, ainda mais por morar em São Paulo, que é uma cidade que está sempre se redesenhando, com destruição e construção constantes, ainda mais nesses últimos anos com o avanço do neoliberalismo. Mas, voltando à pergunta, essa busca começa no skate, mas vai se expandindo para outros interesses também. Com o tempo, os interesses vão mudando. Então, inicia no skate e vai esbarrando em várias esferas do urbano, como lutas por moradia, movimentos culturais, pixo, arte de rua, intervenções, coletivos que usam a cidade para se expressar e também protestos e manifestações políticas.
Ao longo de tantos anos explorando a cidade, qual foi a situação mais surpreendente ou marcante que você viveu nas ruas? Pode ser algo relacionado ao skate ou simplesmente à experiência urbana.
Acho que vou para o lado lúdico nessa (risos). Por volta de 2009, estava andando no Vale do Anhangabaú à tarde e comecei a perceber uma movimentação diferente, de estruturas e pessoas. Algo ia acontecer ali, e comecei a me preparar para ir para outro lugar andar de skate. Mas algo me fez permanecer. Foi chegando mais e mais gente, e fui entendendo aos poucos que teria um grande espetáculo de rua. Uma experiência que só depois fui entender melhor. Se tratava do Ano da França no Brasil. O rolê envolvia Os Gêmeos, Siba e uma montagem cenográfica gigante, onde um boneco inflável enorme flutuava pelos ares do centro, com balões de ar dando movimento. Tudo isso com fumaça, cores vibrantes, contação de histórias e música de Siba e a Fuloresta. A concentração foi crescendo, e eu não entendia muito o que estava vivendo. Hoje sei que era um espetáculo chamado “O Estrangeiro”, originalmente apresentado na Holanda. Foi muito bonito ver o centro daquele jeito. Voltei alterado para casa. Era um simples rolê de skate no Vale e se tornou algo memorável, que pude compartilhar com amigos de sessão que também decidiram ficar. Mais uma vez, fomos surpreendidos pelo cotidiano e pelo acaso. Lembrei também de um show do Manu Chao com o Cordel do Fogo Encantado, no Ibirapuera. Mas essa já é outra história, também atravessada pelo skate…
E momentos de tensão? Quem anda nas ruas também enfrenta conflitos, abordagens policiais, segurança privada, acidentes ou situações inesperadas. Qual foi o momento mais tenso que você já viveu em um rolê pela cidade?
Foi recente. Em janeiro de 2022, tivemos um incidente em que roubaram nossa câmera. Uma situação muito louca, vou tentar resumir. Eu estava fazendo uma oficina de vídeo para a empresa que cuida do Vale do Anhangabaú. Nesse dia, estava de carro, estacionado na ladeira do Teatro Municipal. Como o carro estava visível, eu ficava indo e voltando para pegar materiais, sem saber que estava sendo vigiado. Depois da oficina, guardei a bolsa da câmera no carro e continuei no Vale, pois seria aniversário da Ca Cristie, e ela tinha uma promessa de não comer no McDonald’s havia anos. E, após a meia-noite, ela poderia cumprir isso. Quando voltamos ao carro, por volta das 23h, percebi o vidro lateral quebrado. Ao abrir o porta-malas, vi que a bolsa tinha sumido. Restou o skate e um truck avulso. Fiquei impactado, mas seguimos o plano da ir ao McDonald’s. Enquanto o pessoal pedia comida, fiquei na mesa. De repente, entra um cara estrangeiro oferecendo trucks para vender. Quando olhei melhor, ele estava com a minha bolsa nos ombros. Falei na hora, de forma efusiva: “Tem uma câmera aí dentro!”. Ele confirmou, e começamos a explicar que tínhamos sido roubados. Pedi para abrir a bolsa, e lá estavam os trucks e a câmera intacta. Gabirinja estava filmando tudo, e o segurança perguntou se queríamos chamar a polícia, mas dissemos que não. O cara ainda voltou pedindo 70 reais, dizendo que comprou na feira do rolo. Não demos nada e pedimos para ele ir embora. Foi uma surpresa muito boa. Recuperamos a câmera sem esforço algum. Ficamos sem acreditar. Mais uma vez, o acaso nos surpreendeu. E ficou o aprendizado: quando algo é roubado no centro, essa mercadoria circula por horas entre feiras de rolo e pessoas tentando vender.



Você é um dos skatistas que mais frequenta o centro de São Paulo. O que existe no centro que faz tantos skatistas se reunirem ali diariamente? O que torna esse espaço tão especial para o skate?
Acho que a própria arquitetura. São lugares construídos com materiais muito bons, que resistem à ação do tempo, e a tradição é universal, principalmente nos centros das grandes cidades, aos sábados e domingos. Lugares importantes para a cidade acabam se tornando importantes para a cena do skate. Fora as questões de localização também: o centro fica mais fácil para encontros de grupos que saem de diversas zonas da cidade.
O centro é um lugar marcado por trabalho, circulação intensa de pessoas, comércio e conflitos urbanos. De certa forma, o skate cria ali um outro tipo de uso do espaço. Você sente que o skate transforma a maneira como esses lugares são vividos?
Com certeza, o skate no centro, em um dia de semana, cria uma permanência vista até com maus olhos por grande parte da população. É provocador no sentido de que é um outro tempo na cidade, não o tempo do trabalho (mesmo que seja), e isso é muitas vezes visto como vagabundagem. E realmente pode ser. É vagabundeando que tanta coisa foi feita no mundo. De novo voltamos à questão do tempo livre na cidade: quem pode andar de skate à tarde, em uma praça pública? Maneiras alternativas de trabalho não são bem-vistas na sociedade. Às vezes, a pessoa está ali livre em uma segunda-feira porque é justamente o dia em que folga do seu trabalho, ou mesmo desenvolveu um tipo de trabalho que consegue se manter com poucas horas no dia, na parte da manhã, por exemplo. Mas é um processo. Quem vê de fora pode julgar, mas acho que os skatistas não ligam muito. Preferem curtir esses momentos de liberdade que incomodam tanta gente. É o tempo lúdico construtivo.
Ao longo da sua trajetória, você viu a cidade mudar bastante. Na sua percepção, como São Paulo mudou para quem anda de skate nas ruas?
Se formos pensar o skate unicamente, São Paulo está muito bem. De 10 anos para cá, a cidade reformou muito, mesmo com a vigilância crescente e essas tensões entre o público e o privado. O cenário melhorou para o skate de rua, porque, quanto mais pistas fazem, mais as ruas se esvaziam, sobrando para quem curte essa prática incessante de andar em lugares novos. E o futuro é fértil, pensando nas próximas reformas que vão transformar a região da Luz e dos Campos Elíseos. Às vezes, no começo, proíbem, mas logo vira um terreno baldio onde ninguém mais liga, e aí os skatistas ocupam, assim como aconteceu no Rio e em sua região portuária.
Você já teve a sensação de descobrir partes da cidade que muitas pessoas nunca conhecem, justamente por causa do skate?
Sim, regiões de fábricas, bairros afastados que eu não iria por outros motivos além do skate, desde épocas de campeonatos. O Sampa Skate me fez visitar bairros do outro lado da cidade, e depois as sessões de rua também foram explorando esse lado de caçar pico pela cidade. Geralmente uso bicicleta para isso também. É uma mobilidade boa e, até mesmo em zonas perigosas, me sinto mais seguro. Gosto de estudar os terrenos para depois voltar com skate e câmera.
Existe algum lugar da cidade que marcou sua trajetória como skatista? Um pico que tenha significado algo especial na sua vida?
Com certeza, o Centro de São Paulo. Não tem jeito. Marcou minha adolescência e vida adulta. Aquele circuito, Vale, Sé, Pátio do Colégio, carrega muita história. A pista do Carandiru também foi bem importante em certo período para mim.
Foi essa relação intensa com as ruas e com o cotidiano urbano que te levou a criar o Flanantes?
Foi uma mescla de acontecimentos na cidade que iam me alterando como pessoa. Chega um momento em que sinto que preciso expressar isso, e o vídeo achei ser um bom caminho. Sempre gostei de filmar, mas, nessa época, algo mais forte despertou em mim, pensando um pouco para além das manobras. Eu sempre me interessei por assuntos sobre o urbano, mas foi nessa fase que senti que podia compartilhar isso para quem também se interessasse. Também foi um período em que fiz um curso que você ministrou junto ao Magnani sobre Antropologia da Juventude, e isso influenciou bastante essas criações. Mas ainda tem uma coisa que não falo muito, e, olhando para trás, acho importante elaborar: a criação do Flanantes também vem de uma falta. Após um boom de projetos videográficos junto à Vibe, que me patrocinava na época, com o videomaker Guilherme Guimarães e o Esteban Florio no marketing, fizemos bastante coisa juntos, que iam além de relações mercadológicas. Um vídeo como o Cityzen foi bem tocante para a gente na época, junto à equipe também. Depois da saída deles, por volta de 2015, o ritmo mudou, e eu coloquei um pouco dessa energia em registrar meus próprios amigos e também a cidade, que estava passando por tantos períodos importantes. Foi um caminho sem volta. Antes eu fazia Molusco Filmes, e foi um vídeo chamado “Ser do Centro” que despertou esse lado. Era um pouco da linguagem sendo criada ali: skate com temas urbanos que interessam não só a skatistas. O André Porto sempre me ajudou com as artes e animações, e seguiu fazendo isso junto no Flanantes. Acho que isso foi dando um tom mais profissional, e agradeço a ele e a tanta gente legal que soma nesse coletivo.
Afinal, quem são os Flanantes hoje? É um coletivo, uma ideia, um modo de estar na cidade?
Eu diria que são essas três coisas e mais algumas. Flanantes é um coletivo aberto que busca registrar um período de vivências na cidade, usando o skate e as diversas interações dele junto ao urbano. Conviver entre amigos e estar na rua faz com que a gente presencie muitas coisas que, muitas vezes, só vamos ver nas mídias dias depois. É meio que uma visão sem filtro dos acontecimentos que nos circundam. Isso vai se juntando a temas que me interessam e tento fazer relações em cada novo vídeo. Mas, em linhas gerais, é um coletivo aberto, com colaborações mútuas. Eu e André Porto estamos sempre conectados, porque ele faz essa parte gráfica e eu filmo e edito. Mas, claro, muita gente ajuda, com imagens, textos, ideias, fotos, música e afins. É até difícil citar, porque sempre vou esquecer alguém, mas quem participa sabe. Muita gente já passou. Há períodos e rotatividade também, porque a vida vai levando para outros caminhos. Então, por isso, existe essa circulação constante de pessoas. Acho que isso torna o coletivo dinâmico também. As parcerias com artistas, nos últimos projetos, também dão um ar novo a cada nova produção. Basicamente, Flanantes é uma forma de nos expressarmos, juntar gente, arquivar nosso tempo e buscar afinidades e interações com quem curte estar pela cidade também.
O Flanantes já tem mais de uma década, com vídeos como “Situacionistas”, “Deambulações”, “Zonzo”, “Against Le Corbu”, “Valeros”, “Andarilhagens”… Se você tivesse que escolher, existe algum que te marcou mais profundamente? Por quê?
Eu gosto de todos (risos), mas acho que o primeiro é memorável, porque ele ia ditar o que estava por vir, que é o Flanantes, de 2016, que deu nome ao coletivo. Como são vídeos independentes, todos me marcam pela liberdade de se fazer o que quiser, além das descobertas pelo caminho, seja pelo tema, seja pelo que se filma na rua. São formas de expressão e também de lembrar da vida. Como você disse, já são 10 anos, então, a cada vídeo, é possível lembrar o que estava acontecendo, seja no âmbito pessoal, seja na cidade. Memórias coletivas também, como a destruição do Vale do Anhangabaú, foi muito forte tudo aquilo. E fazer vídeo foi uma forma de expressar esse sentimento da perda desse lugar e também contar essa história que muita gente nem sabia da importância que tinha para a gente. Por isso é difícil escolher um. Cada vídeo feito representa um período, e cada um tem um significado diferente. Todos me marcam.
Os vídeos do Flanantes vão além das manobras. Sempre têm um conceito, uma narrativa, um pensamento por trás, muitas vezes dialogando com autores como Michel Foucault, Michel de Certeau, Guy Debord, Jane Jacobs, Deleuze & Guattari, dentre outros. De onde vêm essas referências? Isso surge do skate ou de outras experiências?
São referências de leituras mesmo. Pesquiso literatura que pensa o espaço público, correntes de pensamento também de outras épocas que buscavam na cidade uma forma de expressão, tal como os situacionistas, ou as deambulações de Hélio Oiticica. Um assunto vai puxando o outro, porque esse universo da literatura é muito amplo. Você e Léo Brandão também influenciaram bastante nas pesquisas, e até já fizemos boas parcerias. Ativamos o lado narrador do Léo (risos), em Flanantopias. Jane Jacobs, com o balé da calçada, e Paola Berenstein também é essencial citar, uma mestra contemporânea nossa que escreveu vários livros nessa temática das errâncias, como Elogio aos errantes e Estética da ginga. Francesco Careri também, com Walkscapes. Desse livro saíram pelo menos uns quatro vídeos: Zonzo, Per, Ká e Nova Babilônia. É muito legal porque são pessoas que depois fomos conhecer e que gostaram do que fizemos. Então, dá uma sensação boa, um elo criado mesmo entre rua e academia. E, além dos temas, esse compromisso com o skate de rua também é sempre valorizado em cada vídeo. É gratificante ver a galera feliz em cada nova estreia. Hoje em dia, em tempos de rede social, tem molecada mais nova que nem teve muito contato com câmera; é mais celular mesmo.
Para além da produção de vídeos, o Flanantes também se destaca pela mobilização cultural. Isto se refere, por exemplo, à ocupação de uma sala da Vila Itororó e, mais recentemente, da criação de uma banca numa das unidades do SESC de São Paulo. Você pensa em expandir ou profissionalizar essa frente? O que vem pela frente?
Nesses projetos que vão além dos vídeos, fiz bastante coisa sozinho na parte das escritas, como na Vila Itororó. A inscrição foi feita por edital, e eu precisava fazer relatórios das nossas atividades. Durou dois anos nossa residência ali. Não foi remunerado, mas era um espaço bom de partilha no centro. Mais recentemente, nesse projeto com o SESC, contamos com ajuda de produção cultural da Gi Ueda, que ficou na conexão com eles. Na parte de documentação também, tem sido muito legal essa banca, e conseguimos trazer pessoas próximas para trabalhar junto nesses meses. Encerra logo mais, no fim de março. Foi bem desafiador, mas dá orgulho quando fica pronto, ainda mais por ser na Casa Verde, um bairro importante para a história da cidade e do skate, e com o qual tenho relação por ser da Zona Norte. Então estamos expandindo esse lado cultural também. É uma intenção conseguir se envolver nesses meios sem perder nosso propósito. Também não temos maiores ambições de projetos gigantes. As coisas vão surgindo, e vamos aproveitando as oportunidades, tentando conciliar com a vida de cada um. Não sabemos o que vem pela frente, mas estamos sempre movimentando e criando essa rede que busca um skate mais informativo e interativo.
Confesso que sou fã de todas as ações e da sensibilidade do Flanantes. Minha esposa, por exemplo, sempre se emociona ao assistir a cada produção. Há algo que toca profundamente, seja pelas músicas, pelas relações com a cidade, pelo contexto político ou pela mensagem de fundo. No entanto, por trás de todo trabalho relevante, existem muitos desafios. Nesse sentido, quais têm sido os principais obstáculos que o Flanantes enfrenta para se manter ativo?
Valeu pelos elogios, Gian e Naná. Eu sinto as mesmas coisas quando estou fazendo. Também me tocam as músicas e tudo mais. Importantes os incentivos sempre. E os desafios principais acho que vão nessa linha: se manter motivado e tentar motivar a galera que anda junto. A gente vê muita energia colocada em rede social, coisas que vão sumir amanhã, como um story, e o vídeo tem esse potencial de ficar mais marcado no tempo, eu acho, traçando uma trajetória e contando uma história. Os obstáculos são também financeiros, pensando que, na maioria dos casos, os projetos são independentes, então acabamos colocando grana do bolso para as coisas acontecerem. Então, por exemplo, a pergunta anterior se relaciona a essa, porque atividades como essa do SESC, que são remuneradas, nos ajudam a continuar fazendo vídeos.


Em países como França, Inglaterra e Suécia, há um diálogo mais consolidado entre skate e urbanismo, com apoio institucional e do mercado. Como você vê o cenário brasileiro? Falta apoio? Ou ele está direcionado para outro tipo de skate?
Sim, vemos exemplos bem legais nesses países, até mesmo através de confederações apoiando projetos core. Acho que existe bastante apoio no Brasil, mas, justamente como você disse, ele está direcionado para esse lado competitivo e midiático. Pensando o skate como uma prática urbana mesmo, sinto falta desse diálogo institucional. Já consegui vincular o skate ao DPH (Departamento do Patrimônio Histórico), através da Jornada do Patrimônio, em 2019 e em 2021, e foi nesse caminho da prática na rua mesmo, falando de picos importantes e de pessoas que têm relações com esses territórios. Em um grau menor, isso também é midiático. Vai muito de nós também correr atrás desses apoios que ajudem esse skate que nós buscamos praticar, então vejo que os skatistas precisam aprimorar os saberes que vão além das manobras. Por exemplo, skatistas com arquitetos podem fazer praças pelo Brasil todo, pensando materiais e desenhos lúdicos. Já existem iniciativas assim, mas ainda são poucas. É um caminho possível de instituição que vai beneficiar quem pratica o skate cotidiano.
Você sente que hoje o mercado privilegia mais o skate espetacularizado (competições, performance, redes sociais) do que o skate de rua mais livre e experimental?
Acho que sim, o mercado precisa de números, e todo o sistema que faz a roda girar caminha junto a essa espetacularização crescente e a esse algoritmo que nos adoece dia a dia. Mas também é algo que vemos em outras cenas: o experimental, por exemplo, na música, sempre vai ter um público menor ou vai demorar mais a ser entendido. Às vezes, as pessoas que estão ali criando curtem um público menor também, mais seleto, e que aprecia o que consome por vontade própria, por uma escolha consciente. Ainda sobre o mercado, é uma coisa que mudou bastante. Pensando em que as marcas antes estavam nas revistas anunciando, hoje estão mais voltadas aos meios digitais. Muitas vezes, o próprio contrato do skatista acaba se confundindo com o trabalho feito por um influencer, priorizando alcances, metas e métricas algorítmicas.
Por falar em outros países, você acumula uma série de experiências internacionais significativas. Já foi palestrante na Universidade de San Diego, na Califórnia (EUA); convidado especial do Connect Skaturbanism, em Bordeaux (França); e também participou de festivais de vídeos de skate em lugares pouco prováveis, como na Croácia. Como você avalia essa circulação internacional? Dentre essas experiências, qual foi a que mais te marcou?
Eu avalio como um pouco despreparada (risos). A questão da língua sempre pega. Já rolou algumas com tradução, aí foi mais tranquilo, mas essa do Connect, em Bordeaux, foi bem desafiadora nesse sentido. Fiquei nervoso, e quando acabou deu um alívio, ainda mais com a galera do Brasil presente lá no evento, mas é sempre legal participar podendo contar um pouco do Brasil e da nossa cena. Agradeço ao Leo Valls pelo convite e ao Rafael Murolo por também me deixar mais tranquilo. Fizemos a palestra juntos sobre o Vale do Anhangabaú. O mais marcante para mim foi ter ido ao Vladimir Film Festival, na Croácia, em 2018, um festival bem underground de filmes de skate. Eu estava em Portugal na época por outros motivos, e aí calhou de ir lá representar o projeto Dornelândia, que fiz com Ned e Cotinz, na Void. Consegui uma passagem partindo de Portugal e fui: Lisboa até Veneza, para depois pegar um transporte por terra até a Croácia. Atravessei países. Salve Pedro Damásio, que fez o corre para dar certo. Foi uma experiência marcante tanto pelos perrengues todos quanto pelas partes boas. Fui sozinho para um lugar não óbvio, foi bem difícil chegar na Vila de Fažana, próximo à cidade de Pula, e é um evento que recomendo a todos que tiverem oportunidade de conhecer, feito anualmente por amantes de vídeos e de skate urbano. A gente brinca, eu e Fábio Pimentel, que existia a I.S. (Internacional Situacionista), e essas conexões Brasil afora configuram a I.F. (Internacional Flanantes), gente do mundo que pensa parecido.
Você também tem uma trajetória marcada por viagens pelo Brasil, especialmente pelo Nordeste. O que mais te chamou a atenção nessas experiências, seja em relação às cidades, às cenas locais de skate ou às formas de viver o espaço urbano?
Já tinha ido outras vezes, mas muito vinculado a marcas. Como Salvador, dessas vezes mais recentes fui por vontade própria e sozinho, conectando pessoas e me convidando para conhecer as cidades como Natal, João Pessoa, Pipa, Recife e Olinda. Pude conhecer muito melhor a cultura e a cena de skate local, como o pessoal da Recife Skate Mafia, e cenas independentes em Salvador também, como o grupo Casa Cheia, que faz seus próprios vídeos. Foi muito divertido. Entre o início de 2025, passei o Carnaval também por lá, em Olinda, que é uma festa bem tradicional, e no início deste ano em Salvador, pegando o Dia de Iemanjá, e aproveitando também para filmar para projetos como o Flanou ou mesmo o Flanantes. A relação com o espaço urbano é bem diferente, eu sinto. Parece que aproveitam melhor os convívios na rua, talvez pelo fato de ter bastante praia também, onde é um ótimo ponto de encontro para fugir da rotina estressante de trabalho. Várias pessoas que encontrei nessas viagens se tornaram grandes amigos, e também revi muita gente que se jogou para lá.
Você acha que o street está em decadência? Ou que está se transformando? Viver exclusivamente do skate urbano, sem competições, sem se render a métricas das redes sociais, é possível?
Pergunta delicada, Gian (risos). Parece que o skate deu uma transformada mesmo. De novo, muita energia em rede social, isso muda um pouco a dinâmica até mesmo da novidade. Às vezes, um pico novo bem legal para filmar uma vídeo parte ou um full vídeo já é postado para logo sumir. É uma ansiedade dos dias atuais, digo isso para mim mesmo também, porque às vezes dou uma desandada no Instagram. Sendo que, se tivermos mais paciência, esse mesmo conteúdo vai para as redes depois. Usar as redes como divulgação de um trabalho que está fora delas, e não ela por si sendo alimentada constantemente como um bichinho virtual. É isso que eles querem, que fiquemos mais e mais tempo ali. É um exercício difícil, mas vale a pena ficar mais offline para depois, sim, conseguir soltar tudo. Igual estamos colocando essa energia nesta entrevista, é trabalhoso elaborar isso tudo. Projetos demandam tempo, e acho que o caminho nos dias atuais é pensar como a nossa rede pode ser mais unida, com ajudas mútuas e mobilização para além da dominação do algoritmo. E sim, tem sido bem difícil viver desse skate de rua. Vejo muitas pessoas andando muito bem, com estilo, fazendo coisas muito difíceis e não conseguindo patrocínios. Então vemos que é mundial. Skatistas muito talentosos que precisam trabalhar com outra coisa para fazer dinheiro e continuar andando de skate por amor, por satisfação pessoal, em marcas menores, de amigos. Algo como resgatar um sentimento antigo, do motivo pelo qual começamos com isso de fazer skate.
E como você avalia o atual momento da sua carreira profissional? Recentemente, você passou a integrar uma marca importante, a ASICS, que vem redirecionando suas ações para o skate. Além disso, mantém parcerias com a Tupode, Improve e Honeypot Wheels. Após quase 30 anos de skate, você se sente valorizado? O que ainda pode melhorar?
Para mim, é sempre uma surpresa ter a oportunidade de retomar o skate como profissão. Eu perdi patrocínios em uma fase boa e fui lidando com isso sem desistir do skate, mas explorando outras facetas dele, que acho importante, e focando também em outras coisas para conseguir viver sem maiores apertos. Teve fases piores e fases melhores, mas fui aprendendo a me manter sem depender unicamente de rendas do skate. É uma direção que acho importante ser trabalhada também: uma educação financeira para skatistas, porque sabemos como é o mercado. Ele te usa e depois te descarta. Vi muitos casos assim ainda muito novo, de conhecidos. Então, não foi uma surpresa, mas, mesmo assim, me impactou bastante na época e afetou a vida pessoal. De qualquer maneira, sempre fui grato. Não cultivei mágoas nesses períodos. Foi importante para novos caminhos se abrirem. Hoje em dia, eu, por um lado, fico feliz de poder somar nessas parcerias, mas, ao mesmo tempo, fico triste por ver tanta gente talentosa sem conseguir apoio, por várias questões. Sabemos que skate não é só manobrar, e admiro os que vencem pelo nível. Por isso também gosto de filmar essa galera. Gente que está se doando ao skate deve ser registrada. Mas também, às vezes, não é só o registro que conta, uma conversa pode ser importante, uma ida a um lugar diferente. Mas, falando sobre melhoria, não parte só das marcas, eu acho. Nós, skatistas, precisamos nos aprimorar, fazer as próprias marcas, estudar, promover encontros, saber nosso valor. Tudo isso é difícil também, e não é do dia para a noite. Mas andar de skate também é bem difícil, então acho que somos capacitados. É só uma questão de se atentar a isso.
Você desempenha um papel importante no universo do skate ao manter uma conexão direta com a rua. Sua trajetória reúne uma dimensão profundamente empírica, enraizada no lugar onde o skate efetivamente acontece. Como você avalia as marcas que priorizam aspectos mais superficiais, como número de seguidores e engajamento nas redes sociais, em detrimento de quem está no cotidiano da cidade, construindo seu trabalho no dia a dia?
Eu acho que a rede social também é um reflexo do que se faz nas ruas, não é algo separado. O que me parece que aconteceu no skate é que, em determinado período, pessoas com muitos seguidores e engajamento podiam alavancar vendas, e essa verba foi direcionada a alguns. E o papel do skatista ficou meio entre as duas coisas, pensando as empresas, querendo comparar um ao outro através de números. Esse foi o erro, na minha opinião. Fiz coisas saudáveis em canais como Rodfilmes, que eu já conhecia antes de estourar na internet por ser do meu bairro. Tivemos o mesmo apoio da Vibe Shoes, mas eram linguagens diferentes de skate. Mesmo assim, poderia acontecer um cruzamento para criação desses conteúdos. Agora, pensando em alguém que trabalha no marketing de uma empresa, as métricas que as redes entregam são relatórios completos de fluxos. Então é algo com que vamos ter que nos acostumar, mas fazer do nosso jeito, às vezes até descobrindo novas formas de parceria. Recentemente, fiz parceria com a Goose Island, marca de cerveja. Foi um trabalho quase como o de influencer, junto à Pipa Souza também e outras galeras de outras áreas. Mas aproveitei para investir em meus projetos pessoais, como o vídeo “Ágoras”. Era parte do meu plano, nos meses da parceria, entregar um vídeo. Acredito que é um caminho também: saber explicar de que forma atuamos, qual skate estamos buscando e com quais pessoas ele se comunica. Eu tento não detonar o que não curto. Vendo a cena atualmente, prefiro apenas não consumir, como esses grandes eventos que passam na TV ou coisas do tipo. Enquanto isso acontece, um monte de coisa que me interessa e me inspira também está acontecendo, então coloco as intenções e os desejos nessas coisas. São lampejos em que buscamos ficar atentos para não desanimar em meio ao esvaziamento dos sentidos.
E sobre as suas novas vídeo partes? Em breve teremos o “Háptica”. Você poderia adiantar algo sobre esse projeto? Há uma previsão de lançamento?
Acho que sai agora em abril. “Háptica” é minha terceira vídeo parte independente, com artes e apoio do João Poly, aka Ben10, de Barretos. Então fecha essa trilogia: “Citadino”, “Crash” e “Háptica”. São manobras que vou juntando em meio às sessões do Flanantes ou outras por aí, em viagens. Diversos amigos me filmaram, e alguns também têm manobra no vídeo. Há uma relação no título com esse novo vídeo do Flanantes, que é o “Revide”, entre os espaços lisos e estriados de Deleuze & Guattari. Em algum momento, se fala sobre uma percepção háptica, que, na minha cabeça, tem a ver com sentir essas texturas da rua com os pés. Por isso o nome. A gente nunca está satisfeito com as próprias manobras, mas é preciso soltar para poder dar continuidade em outros projetos. Agradeço ao Maikon Quaresma (Baraka) também, que filmou várias.
Quais são as suas expectativas profissionais daqui para frente? Você imagina, em algum momento, inverter seu papel, isto é, deixar de ser skatista profissional para se tornar um profissional do skate, atuando como team manager ou até mesmo criando sua própria marca?
Vamos lançar um model de calça da Tupode em breve. Pensamos juntos no produto e estamos elaborando a campanha online. Seguir andando de skate mesmo, com apoio ou não, é algo que me faz bem, para o corpo e para a mente. Sobre isso de inverter papéis, é algo que me perguntam com frequência, e eu respondo assim: fazer vídeo já é uma inversão. Sair do papel de skatista e ser videomaker, promover as premières, conectar lugares e descobrir espaços também se vincula a essa produção cultural. Até mesmo como fizemos na época do livro do Vale, foi um grande esforço que valeu a pena. Então eu penso nisso toda hora, e já até inverti em várias ocasiões. Mas não me vejo cuidando de skatistas, nem trabalhando em marcas, nem criando marcas no momento. Uma galera fala que Flanantes é uma marca, mas eu não vejo assim. Nossa promoção é de ideias e não de produtos. E isso não impede também que façamos produtos, fizemos vários já, mas sempre vinculados a algo dos vídeos lançados. Talvez meu caminho seja mais para esse lado de produção cultural ou nessas conexões acadêmicas que vamos fazendo.
Quem são seus parceiros de sessão hoje? E, para além do skate, que tipo de rolê não pode faltar com essa galera?
Felipe Andrade, Maikon Quaresma, Bigode, Didi quando possível, Deyse, Caio Sakai e Apelão aos domingos, e todo mundo que chega junto nas sessões. O que não falta é aquela vivência urbana de que gostamos: curtir um som, colar em uma festa de rua, ver a cidade se movendo. Um pedal também é sempre bem-vindo para fugir do caos e do estresse dos transportes motorizados.
Você está sempre presente na vida cultural de São Paulo. Qual programação (show, exposição, première) mais te marcou recentemente?
Acho que Juçara Marçal, seguida de Planet Hemp, no Vale, foi bem impactante. Lembro que, no primeiro dia da Virada, teve bastante violência no centro, até viralizaram alguns vídeos de arrastões e roubos de celular. Por sorte, eu tinha ido a shows na Zona Norte. Aí, no segundo dia, rolou esse show no Vale, com policiamento dobrado. Muita gente ficou com medo de colar devido ao dia anterior, mas foi bem tranquilo.
Ainda sobre São Paulo: como você avalia o Vale do Anhangabaú após a reforma? O Memorial do Skate produziu o efeito esperado? Você participou ativamente das mobilizações em torno do “Salve o Vale!”, então acho importante ouvir seu balanço sobre a situação atual desse espaço, hoje sob gestão da iniciativa privada.
A empresa que cuida do espaço todo do Vale tem respeitado o Memorial do Skate e não faz eventos na parte das pedras. O efeito esperado era o de rememorar esse local, um mix entre o novo e o velho, através de uma nova arquibancada. Curioso que é bem essa parte que é a mais “largada”, concentrando os indesejados, separando do Vale de concreto. Vemos pessoas dormindo cedo e pessoas viradas da noite também. Fora isso, acumula bastante sujeira na parte da manhã, principalmente aos domingos, mas não é algo que surpreende: é o centro da cidade e seus diversos problemas. Mas, ainda assim, é bonito ver o Memorial sendo usado por diversos tipos de gente, muito além do skate. Se pensarmos no uso misto, que era uma de nossas premissas, ele foi cumprido.
Como você se imagina daqui a 30 anos? Olhando para a sua trajetória, você acredita que tudo valeu a pena?
Tenho 36, teria 66. Não imagino como estarei. Espero estar bem (risos), e espero ter saúde mental e física. Sim, acredito que tudo valeu a pena, sim. Me orgulho de nossas atividades e parcerias. As partes ruins do caminho a gente usa como aprendizado.
Em tempos digitais, você acredita que a mídia impressa perdeu seu lugar ou ainda há espaço para iniciativas inéditas, como uma revista de skate (por exemplo, Black Media Skate Mag), um clube de assinatura ou outros formatos?
Acho que sim, perdeu bastante espaço, pensando no jornalismo como um todo. As redes apresentam as novidades que antes uma revista apresentava. Infelizmente, as redes gritam (risos). Acho que, para o impresso, é necessário pensar mais em livros no momento, ou zines, algo feito de maneira menos periódica, mas com conteúdo interessante que as pessoas vão querer consumir e que não estará na internet, assim como recentemente foi feito o livro do Embarcadero.
Para encerrar, gostaria de agradecer pela disponibilidade e pelo tempo dedicado a esta conversa. Como todos sabem, Murilo Romão é muitas ideias. Então deixo aberto para você: compartilhe um recado final, agradecimentos, provocações ou questões que considera importantes.
Obrigado você, Gian, pelo empenho nas perguntas. Foi uma batalha mental responder todas, mas muito legal também lembrar de vários períodos e histórias. O recado final é para a gente se cuidar mesmo: de quem está perto, buscar o que nos faz bem, se afastar do que faz mal, refletir sobre nossas atitudes e como isso impacta os outros, cuidar da saúde, se mexer e cuidar da alimentação também. A gente se vê em breve, Gian. Obrigado à Black Media pelo espaço.

















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